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A lógica de Nicodemos

Uma meditação sobre o diálogo entre Jesus e Nicodemos (Jo 3,1-9) que revela o limite da pura lógica diante do mistério da fé e convida o professor católico a cultivar a vida interior.

Nicodemos, o notável que ignorava o essencial

O Evangelho de São João apresenta Nicodemos como "um notável entre os judeus", fariseu respeitado, mestre em Israel. Era homem de dons visíveis, capaz de chamar a atenção pela sabedoria humana. E, no entanto, esse mesmo homem termina o diálogo com Jesus ouvindo a mais desconcertante das perguntas: "És o mestre de Israel e ignoras essas coisas?"

De notável a ignorante. Este é o percurso que São João nos convida a acompanhar — não para julgarmos Nicodemos, mas para reconhecermos quanto de Nicodemos ainda habita em nós. Somos, muitas vezes, errantes que julgam estar no caminho certo. A meditação começa com uma pergunta honesta que cada um deve dirigir a si mesmo: não serei eu também um errante confiante demais?

A tentação do exterior

O fariseu representa, no Evangelho, o "sepulcro caiado": belo por fora, vazio por dentro. Nicodemos vivia intensamente as coisas de Deus, mas de modo exterior. Conhecia a Lei, os sinais, a religião — mas não havia entrado no coração daquilo que conhecia.

Aqui está o alerta permanente para o cristão e, de modo especial, para o educador: podemos acreditar que temos uma experiência com Cristo quando temos apenas uma experiência sobre Cristo. Vemos Deus de fora, como quem observa uma figura num livro, sem jamais mergulhar. Exterior e superfície são a mesma coisa; é preciso descer ao fundo — e, para isso, é preciso molhar-se.

Conhecemos Jesus como uma imagem, quase como um mito, mas não conhecemos o Seu Coração por dentro. E para entrar ali, o que se sabe não basta.

Os limites da lógica diante do mistério

Nicodemos aborda Jesus armado de um raciocínio impecável: "Sabemos que vens da parte de Deus, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes se Deus não estiver com ele." É um silogismo perfeito. A lógica formal está correta. E, contudo, ela não é suficiente para conduzi-lo ao Reino.

Jesus responde com uma exigência que rompe toda a estrutura da razão puramente humana: "Quem não nascer de novo não pode ver o reino de Deus." Nicodemos, materialista em sua lógica, entende o "nascer" apenas em sentido carnal. Não consegue conceber outro nascimento senão o do corpo.

A fé como ato da razão movido pela vontade

Santo Tomás de Aquino ensina que a fé é um ato do intelecto movido pela vontade. Eis por que a lógica, sozinha, não conduz ao encontro com Deus. O ateu que exige uma prova externa jamais a encontrará, não por falta de argumentos, mas porque falta o querer. E falta o querer porque falta a humildade.

O mesmo vale para nós, cristãos batizados: se muitas vezes não temos experiência viva de Cristo, é pelo mesmo motivo que impede o ateu — o orgulho disfarçado de autossuficiência. Quem quiser verdadeiramente uma experiência com Jesus a terá; mas precisa querê-la com um coração humilde e disposto.

É esclarecedor o contraste das palavras. Nicodemos abre dizendo "sabemos". Jesus encerra dizendo "não sabes". Aquele "eu sei" tão repetido e tão nocivo à alma precisa ceder lugar à santa ignorância diante do mistério.

Nascer da água e do Espírito

Jesus precisa: "Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Na tradição das Escrituras, a água simboliza a fé; e o Espírito, o dom que ultrapassa todo cálculo humano.

O Senhor recorre então a uma imagem que é ela mesma um convite à experiência: "O vento sopra onde quer, e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai." Assim é a vida no Espírito. Não a controlamos, não a determinamos, não a submetemos aos nossos planos.

  • Não sabemos o que se passa exatamente quando a água do Batismo é derramada sobre a criança — mas algo acontece de verdade.
  • Não sabemos por onde vem o Espírito Santo, nem como.
  • Não sabemos o rumo definitivo dos nossos filhos, alunos ou obras.

A grande resistência do coração orgulhoso é justamente não suportar a dúvida, a insegurança, a falta de controle. Exige a segurança que a própria inteligência oferece. Mas viver no Espírito é aceitar caminhar sem saber onde se vai parar, confiando naquele que conduz.

O professor com vida interior

Este Evangelho tem uma aplicação direta e urgente ao trabalho do educador católico. Há um perigo mortal: o do professor sem vida interior, que julga ter cumprido seu dever cingindo-se apenas ao programa letivo.

O currículo corresponde à parte lógica — necessária, mas insuficiente. O essencial é entrar no Coração de Cristo. Um professor com vida interior transmite mais numa só atitude do que num ano inteiro de conteúdo:

  • uma frase que lhe escapa dos lábios;
  • uma comoção que se revela no rosto;
  • um sinal da cruz feito com naturalidade;
  • uma oração antes ou depois da aula, ainda que de matemática.
Perguntaram a um advogado o que vira em Ars, junto ao Santo Cura. Ele respondeu: "Vi Deus num homem." Que possam um dia dizer o mesmo de nós, ao nos olhar.

O apóstolo, acumulador da vida divina

Há uma imagem preciosa: quem lida com a eletricidade fica por vezes carregado de um fluido poderoso, de modo que quem o toca recebe uma descarga. Assim é o homem interior, desapegado das criaturas e unido a Cristo por uma corrente contínua. As pessoas que dele se aproximam recebem um choque de Deus, uma descarga de amor.

Quanto mais fé, esperança e caridade houver num coração, tanto mais esses eflúvios ajudarão a fazer nascer a graça nas almas dos outros. É por isso que a conversão do aluno, do filho, do próximo, não se opera arrastando-os pela força ou pela argumentação. Opera-se assim: faça você, primeiro, o que deve fazer — entre no Coração de Jesus.

Menos lógica, mais graça

O próprio Cristo revela o segredo: "As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai que está em mim é que faz as obras." Quando alguém fala palavras de Deus, o que convence não é primariamente a força dos argumentos, mas o Verbo interior que fala por meio da criatura.

Há uma diferença decisiva entre dizer algo interessante e dizer algo verdadeiro. O homem exterior, sem vida interior, pode fascinar com palavras interessantes — mas isso não converte. As palavras verdadeiras, nascidas do encontro com Cristo, deixam impressão profunda e duradoura. Fazem a alma dizer não apenas "isto é interessante", mas "isto é verdadeiro".

Da língua, instrumento de morte, à língua que anuncia a vida

A Eucaristia é o lugar por excelência desse encontro. Ali não somos nós que entramos em Deus; é Ele que entra em nós. Que o próprio sabor do pão nos recorde quem é aquele que se faz tão próximo. E que, enquanto a partícula repousa sobre a língua, façamos a súplica: "Senhor, santifica onde estás." A língua, que pode ser instrumento de morte pela maledicência, torna-se então instrumento capaz de anunciar a vida, porque do coração habitado por Deus é que brotarão suas palavras.

A última palavra: humildade

Convém, por fim, um exame delicado. Mesmo o desejo de crescer em graça e de entrar no Coração de Jesus pode ser contaminado pelo orgulho — quando se quer crescer em relação aos outros, chegar primeiro, parecer mais santo. Jesus não deixa entrar em Seu Coração o orgulhoso, porque o orgulhoso está inchado.

A condição é sempre a mesma: querer ser o último, como pede a Ladainha da Humildade. Diante de Deus, tornar-nos como Nicodemos deveria ter se tornado — pequenos, ignorantes de nós mesmos, mas abertos ao mistério.

E há uma certeza que tudo resume, aquela que se revelará plena na hora da morte, quando nada do que soubemos ou fizemos valerá de si mesmo: Jesus é Deus, e isto basta. Que possamos, desde agora, querer entrar nesse Coração para sempre.

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