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O voo da Profetiza Ana

A partir de uma canção contemporânea e da figura da profetisa Ana, esta meditação para professores católicos nos convida a reacender o desejo do Céu e a virtude da longanimidade — a perseverança que nos leva até o fim.

Há inspirações que nascem dos lugares mais inesperados. Uma canção simples, composta por uma jovem, ouvida repetidamente por insistência de uma filha, tornou-se ocasião para uma reflexão profunda sobre a vida espiritual do educador católico. Deste modesto ponto de partida, a Sagrada Escritura nos conduz à figura da profetisa Ana e a um dos temas mais esquecidos da nossa época: o desejo do Céu.

Vencer os preconceitos e ouvir com o coração

É próprio da prudência não julgar precipitadamente. Uma música nova, feita por alguém jovem, pode a princípio nos incomodar — pelo uso constante da primeira pessoa, pelo tratamento familiar dirigido a Nosso Senhor, pela ênfase no sentir. São reações legítimas que merecem exame, mas que também podem esconder um risco espiritual sutil.

Entre a reverência e a proximidade

Tratar Nosso Senhor com reverência, chamando-O de Senhor e não apenas de "você", é sadio para a humildade. Ajuda-nos a compreender quem somos diante de Deus. Contudo, há um extremo oposto perigoso: julgar-se mais piedoso pela forma exterior, como se a distância reverente nos tornasse superiores. Ora, precisamente por ser Senhor, Deus se aproxima de nós — e o faz por um ato que escapa à mera lógica humana: a misericórdia. Diante do Senhor, a única coisa que podemos verdadeiramente receber é a Sua misericórdia. Não há tratamento nosso que O torne mais benevolente.

Os sentidos, o afeto e a fé

Quanto ao "sentir", convém recordar a tradição. A fé, ensina São Tomás de Aquino, é uma virtude da razão — a iluminação da inteligência pela graça divina. Não é sentimento. Porém, seguindo Aristóteles, o Doutor Angélico afirma que nada há no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos. Não somos anjos; somos criaturas de corpo e alma. Por isso os grandes místicos, como São Bernardo de Claraval, falavam abundantemente do sentir espiritual.

Existe uma concupiscência espiritual — não voltada às coisas corporais, mas às espirituais — que é o desejo do Céu. Assim como o homem deseja o alimento, o cristão deve desejar a Pátria eterna.

A profetisa Ana: a virtude de chegar até o fim

No Evangelho de São Lucas (Lc 2,36-38), encontramos Ana, profetisa de idade avançada, filha de Fanuel. Após breve tempo de matrimônio, viveu viúva até os oitenta e quatro anos, não deixando o Templo, servindo a Deus dia e noite, com jejuns e orações. A palavra decisiva deste texto é chegou: ela chegou aos oitenta e quatro anos ainda fervorosa, ainda desejosa, e assim pôde tocar o Menino e ir ao encontro do Senhor.

A longanimidade, virtude rara

São Tomás chama de longanimidade a virtude pela qual atravessamos a vida inteira esperando o Céu. É virtude hoje raríssima. Muitos têm a esperança do Céu em determinado momento, mas a esperança sem longanimidade se perde pelo caminho. Quantos foram fervorosos numa fase da vida e depois se extraviaram?

A tradição nos lega o exemplo impactante da conversão de São Bruno: diante do velório de um pregador famoso, tido por santo, o defunto teria se erguido para advertir que fora precipitado ao inferno por causa da vaidade. O terror salutar levou Bruno a fundar os Cartuxos, a ordem mais rigorosa da Igreja. O episódio nos ensina que o julgamento humano de santidade não coincide necessariamente com o juízo de Deus.

As virtudes que nos conduzem à Pátria

Chegar ao Céu é difícil, e o difícil exige virtudes. Ao caminho da salvação são necessárias:

  • Coragem — para enfrentar o difícil;
  • Paciência — para suportar a dor e o difícil;
  • Constância — para manter-se firme ao longo do tempo;
  • Perseverança — para não desistir diante das adversidades;
  • Longanimidade — porque o Céu está longe e demora a ser alcançado.

Todas são correlatas da fortaleza, mas a longanimidade é indispensável: pois para chegar é preciso durar.

Voar leve: romper com o pecado

São João da Cruz recorda que o passarinho, mesmo preso por um fio delgado a uma das patas, não consegue alçar voo. Do mesmo modo, uma pequena impureza, uma malícia miúda, impede a alma de voar. Não conseguiremos eliminar de todo o pecado venial nesta vida, mas devemos odiá-lo, viver incomodados com ele, sem jamais o acolher como parte de nossa vida espiritual. Quanto ao pecado mortal, dele devemos afastar-nos com todas as forças, e, se cairmos, sair o mais rápido possível pela confissão.

Fé e obras: nem quietismo, nem ativismo

Não fomos chamados apenas a cumprir mandamentos — este era o mérito insuficiente do jovem rico. Nem devemos, ao modo protestante, dispensar as obras. A vida cristã exige a união de ambos: fé viva e prática constante, oração pessoal e relacionamento com Jesus. É urgente recolocar o Sagrado Coração de Jesus no centro de nossas salas e de nossos lares, restaurando a devoção que gerações passadas abandonaram, com frutos amargos para os nossos dias.

Ora et labora: o trabalho precisa da oração

Meditando com John Senior e Dom Jean Leclercq, compreendemos a justa ordem entre trabalho e oração. Se não trabalhamos, não comemos; se não rezamos, não entramos no Reino dos Céus. Muitos vivem num círculo vicioso: como o trabalho está desordenado, não sobra tempo para rezar; e como não se reza, o próprio trabalho piora.

A oração enche os poros do trabalho e o torna flexível e útil para Deus. O trabalho torna-se mais leve quando o precede a oração.

Não se pode substituir uma pela outra — nem o ativismo das obras sem oração, nem o quietismo da oração sem obras. São Bento uniu as duas na conjunção et: ora e labora. E não vale a desculpa da falta de tempo: quem gasta uma hora diária no celular não pode alegar que lhe falta tempo para Deus. Basta acordar um pouco mais cedo, dormir um pouco mais cedo, e reduzir o supérfluo.

O último Amém e a agenda de Deus

John Senior propõe uma pergunta que desperta a alma: o que será de nós quando rezarmos a Ave-Maria pela última vez? Quando o "agora e na hora de nossa morte" se tornar simplesmente "agora", e dissermos o último "amém", "assim seja". À beira da morte nada mais há a fazer: tudo ali é consequência do que foi cumprido na agenda de nossa vida. E Deus tem para cada um de nós a Sua agenda; na hora derradeira, verificará se aquilo que estava na Sua coincide com o que colocamos na nossa.

Do desejo à busca, da busca ao encontro

Dom Jean Leclercq, em O Amor às Letras e o Desejo de Deus, ensina que a contemplação plena só se realizará no Céu; é impossível na terra. Mas Deus concede desde já uma antecipação real: o próprio desejo. Desejar o Céu já é usar a alma para o Céu.

Um monge anônimo do século XI escreveu que, a quem quer merecer chegar ao limiar da vida eterna, Deus não exige nada além de um santo desejo. Ainda que sejamos baixos e lentos, se ao menos desejamos as realidades eternas, já corremos para elas. O desejo conduz à busca, e a busca conduz ao encontro. Como buscamos o alimento à medida que temos fome, assim, pela intensidade de um santo desejo, buscamos Cristo, unimo-nos a Ele e O amamos.

Nós, professores da educação clássica

É possível — e desejável — que o amor às letras nos conduza ao desejo de Deus. Mas antes de amar as letras, o educador católico precisa desejar Deus. A educação clássica pode aproximar-nos do Céu, mas de nada serve se não estiver a serviço deste desejo fundamental.

Livres para voar

Não há contemplação sem morte, sem mortificação. Todos os fiéis são chamados a separar-se da terra para vincular-se a Deus, que o Céu simboliza. Um dia os filhos partirão, o cônjuge partirá, e restaremos nós e Deus. Quando o Senhor nos chamar — "vem, o que está feito, está feito" —, só voará quem estiver leve, livre dos apegos ao corpo, à profissão, aos afetos desordenados. O passarinho voa só, sem peso, com suas asas e com Deus.

Que, como a profetisa Ana, atravessemos a vida em jejum e oração, dia e noite, com longanimidade, guardando aceso o desejo do Céu. Que Deus conserve e aumente em nós esse desejo, e nos dê a graça de buscar o que hoje desejamos, até o dia em que, livres e leves, possamos finalmente voar até alcançá-Lo.

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